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5 de Abril de 2020

Urge falarmos sobre a (des)valorização da advocacia

Maico Volkmer, Advogado
Publicado por Maico Volkmer
há 3 meses

É chato escracharmos um problema tão bem maquiado, assim como tantos outros em nosso país. A advocacia já foi pomposa, já foi reconhecida como a profissão dos doutores. Hoje está diferente. E como advogado, eu não só alego, eu provo... Vejam a imagem abaixo:

A vaga foi divulgada no Linkedin (aliás, quem quiser me acompanhar na plataforma, será bem vindo, é só clicar aqui) e em menos de 14 horas registrava 12 candidaturas. Pelos meus cálculos um estagiário deve receber cerca de R$ 1.000,00 por 30h semanais. Tempo integral, para mim quer dizer 40h e o salário é quanto? Na proporcionalidade (não fiz esse cálculo) talvez o estagiário receba mais que o advogado, na relação hora trabalhada x remuneração.

Mas foi um caso isolado? Não, não foi. É mais comum do que pode supor a nossa vã filosofia.

Outro exemplo do que eu falo, aumentou R$ 300,00, mas a segunda oportunidade (se é que se pode chamar de oportunidade) é numa cidade muito maior do que a primeira, o que impacta no custo de vida.

Não sei se só eu, mas não consigo ficar inerte ao ver uma situação dessas. Ainda que meu movimento seja só publicar um texto de crítica na internet. As pessoas precisam saber o que está acontecendo e precisam agir, e logo, para salvar a advocacia.

Como se faz isso? É simples. Não se submeter à vagas como as divulgadas acima. Eu sei que os colegas vão achar n motivos para justificar os que trabalham por esse salário, mas não existe justificativa razoável para isso. E não venham culpar a OAB que não vai rolar. A Ordem tem uma tabela que ninguém segue (concordo que ela é meio exagerada em alguns casos) e depois reclama que o cliente não reconhece o trabalho, que o escritório não se sustenta e por aí vai.

Me desculpem as demais profissões e saibam que eu valorizo todo tipo de trabalho, mas funções que exigem ensino médio, ensino técnico pagam mais do que isso.

Cinco anos de graduação para trabalhar 40h por R$ 1.700,00? Tô legal, sério mesmo.

Eu falei acima da tabela da Ordem e realmente alguns valores são impraticáveis, ainda mais numa cidade pequena como a minha. Hoje recebi documentos de uma ação de usucapião. Consultei o valor referência para precificar e decidi que não tinha como cobrar R$ 4.600,00 para dar entrada no processo e mais 20% ao final, pois o cliente não me pagaria e, me colocando no lugar dele, também não pagaria, independente de nível técnico. O que eu vou fazer? Baixar um pouco o valor da entrada e cobrar no êxito.

De regra, não entro com processo sem cobrar, apesar de ser praxe, pois muitas pessoas acreditam que advogado só cobra "se ganhar o processo". A culpa de existir essa crença é de quem? Da OAB que não...

Reconhecer o problema e assumir a responsabilidade por ele, é o primeiro passo. Entender que se as coisas estão do jeito que estão, não é por culpa da oferta e da demanda, não é por culpa da OAB, não é por culpa das faculdades de Direito que surgem aos montes. Pensem que ainda nem temos Direito no ensino à distância (EAD). Imaginem o que vai virar a profissão quando isso acontecer...

CONCLUSÃO

Para concluir minha reflexão, que talvez tenha ficado um pouco desorganizada, visto que eu estou um pouco alterado por ver esse amontoado de ofertas esdrúxulas, quero dizer que cabe a cada advogado melhorar as condições de trabalho de toda a classe.

Pare de baixar preço para "fisgar" o cliente. Pare de se submeter a trabalhar por salários baixos. E o mais importante: comece por si. Eu estou tentando fazer minha parte. Como disse, em alguns casos não temos como cobrar o que está instituído pela Ordem, mas ainda assim, saiba valorizar o seu trabalho. Não dê consulta gratuita. Não trabalhe somente pelo êxito.

Seus colegas agradecem...

E ainda que eu esteja ciente que não vou mudar a mentalidade de 01 milhão de pessoas apenas com um post no JusBrasil, peço que propaguem essa discussão, levem esse tema para as rodas de conversa nos fóruns Brasil afora.

Tenho certeza que as futuras gerações da advocacia agradecerão. E lembre-se sempre: quem faz a advocacia forte não são os escritórios que contam com 100, 200 colaboradores, sou eu, é você, é seu sócio, seu parceiro, seu associado, cada advogado tem o poder de mudar a realidade.

34 Comentários

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Penso o mesmo que você meu nobre. Prefiro ficar sem ação, do que laborar praticamente de graça. Toda ação cobro para iniciar. Cobro consulta, em muitos casos um valor flexível, mas cobro, divide, parcela, todo mundo hoje tem cartão! afinal despesas de escritório não esperam o êxito da demanda. continuar lendo

Bem isso, Fernando! Infelizmente ainda somos minoria, mas precisamos fortalecer o debate para criar essa consciência. continuar lendo

Concordo plenamente Dr.Maico. continuar lendo

5 anos de faculdade, cursos, especialização fora o estudo e dedicação pra ser aprovado na OAB/RJ pra ganhar R$ 2.000,00 ao mês, prefiro trabalhar no comércio ou vendendo coisas que eu ganho mais. Enquanto isso a OAB só sabe nos cobrar anuidades, queria ver bater em cima desses escritórios com essas propostas indecentes que desvaloriza toda uma classe. continuar lendo

Concordo com suas colocações, Ramon. Temos que nos valorizar. Mas como falei acima, meu protesto neste momento não é contra quem oferece tais condições e sim contra quem aceita. Acho que é mais fácil conscientizar os advogados que trabalham para os grandes escritórios do que os donos destes, já que os grandes são, literalmente, empresas, organizadas em setores específicos e a gente sabe o que toda empresa visa: o lucro. E vejo que só vão parar com as propostas esdrúxulas se ninguém se candidatar às vagas. continuar lendo

Olha colega Maico, recém formado passa por cada situação, lembro bem das propostas indecentes que me foram feitas depois de formado e de escritórios grandes que atendem demandas de massa. Eu simplesmente me recusei a me submeter a tal situação e preferi abrir meu próprio escritório junto com uma sócia e digo que não me arrependo por ter feito isso. O início da advocacia é realmente muito difícil, principalmente pra colocar seu nome no mercado e mostrar que você é um bom profissional, mas sinceramente, nada justifica um advocado ganhar POR MÊS R$ 2 mil reais ou menos para dar conta de uma quantidade absurda de processos. 2 mil reais é o que eu cobro pra fazer ação de alimentos ou divórcio sem bens, em um processo eu ganho isso. Nunca que me submeteria a uma situação dessas, mas digo por mim, cada um sabe onde o calo aperta ou quanto vale seus serviços. continuar lendo

É isso mesmo, Ramon! Concordo com suas colocações. É o caminho que parece mais difícil, mas é o que mais recompensa. continuar lendo

Triste realidade causada pelos próprios colegas que não se valorizam a si próprio e aos demais. Há um verdadeiro canibalismo no nosso meio.

Alguns colegas fazem leilão reverso para pegar uma causa e chegam ao ponto de sugerir valor irrisório.

Como disse o autor do artigo, a culpa é mais de quem aceita do que de quem propõe remunerações e condições vexatórias. continuar lendo

Exato, Miguel. Agradeço a contribuição! continuar lendo

Há um livro (apenas em inglês) chamado The End of Lawyers? (O Fim dos Advogados?). Tem no formato digital. Vale a pena ler e refletir. Estamos em uma questão de oferta e demanda. Quando a oferta aumenta muito o preço tende a cair, e isso está visto e estampado. O inverso deverá ser verdadeiro. Basta ver o número de advogados por habitantes. Hoje temos um advogado para cada 190 cidadãos no Brasil (fonte Migalhas de 15/10/2019), enquanto que no DF tem 73 advogados por cidadão, RJ 120, RS 134, SP 145, PR 160, só para colocar os 5 Estados com mais advogados. Mesmo Maranhão, com toda a dificuldade tem 446 advogados por habitante (está em último lugar). Mas isso são dados do OUT/19, que com certeza já mudaram, tem muito mais. Cada semestre se coloca no mercado "uma França" de advogados. Quem é culpado? Não vou culpar ninguém. Ainda, temos os estagiários (daqui a pouco se tornam advogados), há os bacharéis que podem ou não vir a ser advogado e outros que estão a margem, e todos os estudantes que no máximo daqui 5 anos podem estar no mercado. Logo a tendência só tende a piorar e MUITO! Sinto muito. Simples assim. Sobre a redução de valores, é algo absolutamente normal. São as contas chegando as obrigações, as exigências de altas anuidades (abusivas na verdade) pelo que oferecem, e nos capitaneados por quem não nos representa: A OAB que está encastelada e preocupada com a sua política e a partidária. Lamentável. Quando as faculdades deixaram de ter alunos e passaram a ter clientes, vejo como o grande marco desta derrocada, e não vejo solução fácil ou ainda a curto prazo. Esta é a realidade. continuar lendo

Eu vejo solução! É fácil usar resposta pronta, dizer que é culpa da oferta e da demanda, que temos muitos advogados e tudo mais, pôr a culpa na OAB (queremos livre mercado e extinção da OAB, mas ao mesmo tempo queremos que a OAB nos defenda?), mas bater no peito e assumir a responsabilidade, ninguém quer porque é o caminho mais difícil. Eu tenho meu escritório porque economizei durante 08 anos de trabalho, não sou de família rica, pelo contrário, mas soube me planejar e tem meses que eu não ganho dois mil, mas por falta de clientes, não por trabalhar barato e sei que, mais cedo ou mais tarde, as coisas vão começar a andar e eu jamais serei reconhecido por ser o advogado mais barato da cidade! Sacrifícios são necessários, mas precisa saber o limite de prejudicar só a si e prejudicar toda uma classe. continuar lendo

Sempre escuto esse negocio de oferta e demanda, sempre a mesma coisa que tem muito advogado no mercado, mas as mesma pessoas esquecem que a demanda cresceu também, é com isso, outras áreas do direito se desenvolveram, o advogado só iram acabar se a humanidade for extinta. Mas esse fenômeno de salários baixos, e algo além da advocacia, tem outras profissões na mesma situação, fisioterapeutas, arquitetos, engenheiros, entre outros, conheço um publicitário que virou motorista de van, você acredita nisso?Mas essa situação, ao meu ver, se deve a falta de valorização da educação em nossa sociedade, digo isso pelo que vi e passei, estou me formando através do PROUNI, e passei no exame de ordem no 9º semestre, exatamente daqui a 3 dias estarei colando grau, nesse momento recordo muito no que as pessoas me falaram, por exemplo, "Você não tem condição de estudar", "Direito é muito caro para você", "Fulana de tal fez direito e não conseguiu passar na OAB, você também não vai passar", "Você não tem capacidade para ser advogado", entre outros absurdo, contabilizando são muitos pra te desmotivar e sempre questionaram sua capacidade. Para piorar é difícil encontrar uma empresa que valorize o funcionário que esta cursando ensino superior, tem algumas que nem contratam por esta estudando, ou o que estão contratados são tratados como se já estivesse de saída. continuar lendo

Concordo com a questão de não valorizarmos a educação, Everton. Você está coberto de razão nesse ponto. Também tive exemplos práticos de situações semelhantes as relatadas. Cabe a nós fazermos algo para mudar isso.

Te desejo sucesso na carreira que se inicia, é um caminho árduo, mas o Direito ainda tem muita oportunidade! continuar lendo