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5 de Abril de 2020

O medo da primeira audiência

Tem fundamento ou não? Eu te conto...

Maico Volkmer, Advogado
Publicado por Maico Volkmer
há 3 meses

Vemos o mundo e as situações que nos cercam a partir de vivências e experiências. Isso é filosófico, não sou eu que estou dizendo.

Então vou relatar o que eu passei e como foi a minha primeira audiência. Trabalho na área cível e trabalhista e o início foi um caso cível em que o autor pretendia o desfazimento da troca de dois veículos. Eu defendia o réu. A ação tramitou pelo Juizado Especial Cível. Não estive presente na conciliação, que terminou sem acordo.

Alinhados os interesses e decidido que não faríamos acordo. Levei três testemunhas, que era o máximo que eu poderia, uma para atestar o negócio feito e outras duas para atestar a qualidade do carro comprado pelo autor. A contestação estava bem redigida, "sem brechas" como se costuma dizer.

Inicia a solenidade. Era inverno aqui no Sul. Talvez uns 10 ºC a noite e eu suando por baixo do paletó e da gravata apertada. Tenso, pensando nas perguntas que eu faria. Nesse ponto, já sabia que o autor não tinha testemunhas e fiquei mais confortável.

Começa a solenidade e a juíza leiga questiona se há possibilidade de acordo. Digo que não. A advogada do autor diz que sim. Meu cliente sai para falar com o sócio dele (antigo dono do carro). E por aí se seguem mais 45 minutos de debate e por fim, celebra-se o acordo. Desfazimento do negócio e devolução do dinheiro. Acordo cumprido. Baixa-se o processo.

As lições

Até hoje, três anos depois, fico nervoso em audiência e acho que vai ser assim até o final da carreira de advogado.

A primeira dica: aprenda a reagir rápido se acontecer algo inesperado. Se a testemunha ou o depoente não disser o que você quer ouvir ou for prejudicial ao seu interesse, não se abata e fique pensando que já era. Reaja rápido. Não temos tempo de ficar lamentando algo que deu errado em 15 minutos de audiência. Siga em frente, mantenha seu planejamento como se nada tivesse acontecido.

A segunda: defina margens de negociação e possibilidades antes e siga nisso até o final. Eu fiquei totalmente deslocado quando meu cliente sinalizou aceitar um acordo que me garantiu, minutos antes, que não faria, mas isso entra na primeira dica. Reaja rápido se o planejamento for alterado.

A terceira: nem sempre é só você que não sabe o que está se passando. Isso eu não aprendi na primeira, aprendi com o tempo. Principalmente no JEC, por vezes o conciliador, o juíz leigo, está tão "perdido" quanto você. Então não tenha medo de perguntar, de tentar entender o que acontece.

Tive um caso de revelia, constatada na audiência de conciliação, processo no JEC também. Quando saíamos da sala perguntei para a conciliadora quando seria a audiência de instrução e, naquele momento, descobri que não teria audiência de instrução, que ia direto para parecer do juiz. Fiquei parecendo um idiota que não conhecia o procedimento? Sim. Mas só uma vez. Na segunda que aconteceu eu já sabia do trâmite.

Conclusão

O medo se justifica? Vejo que sim. Como eu disse, ainda fico apreensivo com audiências depois de três anos de advocacia, mas hoje sei dos procedimentos e digo que só aprendi na prática.

Só deixo mais uma dica importante: não se sinta o advogado arrogante e que sabe tudo. Trate as pessoas com respeito, ainda que precise ser firme em alguns casos. Se for ser ríspido com alguém, com alguma testemunha ou com o advogado da outra parte (sei que não é a regra, mas tem momentos em que perdemos o controle e vocês passarão por isso), tenha o mínimo de educação e peça desculpas ao final.

Lembre-se também que quem faz uma advocacia forte são os advogados e o colega que está ali do outro lado da mesa, não está para lhe prejudicar e sim para defender um interesse contrário ao seu e ao de seu cliente.


Se quiser, pode trocar uma idéia comigo no telegram.

2 Comentários

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Muito bom , texto Doutor grata por compartilhar! continuar lendo

Obrigado pelo feedback, Vanessa! continuar lendo